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E se a melhor coisa que pode fazer pelos seus filhos for cuidar de si?

mãe e filhos a brincar

A maternidade é uma das experiências mais transformadoras da vida de uma mulher. Quando se fala de maternidade, fala-se tendencialmente do amor, das alegrias e de sentimentos de realização. Mas onde está o espaço para falar do cansaço, das dúvidas e da culpa que a maternidade carrega? Neste Dia da Mãe, convidamo-la a refletir connosco - não sobre o ideal (inexistente) de uma “mãe perfeita”, mas sobre a maternidade real, construída em torno de recursos, limites e histórias pessoais únicas. 

Apesar do progresso reconhecido ao longo dos últimos anos, parece permanecer enraizada na sociedade a ideia de que o bem-estar dos filhos depende, acima de tudo, da mãe. Como se a ligação por via do cordão umbilical permanecesse no tempo, trazendo consigo uma expectativa invisível sob a figura materna que alimenta a sobrecarga, amplifica o sentimento de culpa quando algo corre menos bem e torna menos intuitivo partilhar ou pedir ajuda. Na Speechcare, acompanhamos de perto o papel da mãe, que reconhecemos como fundamental para o desenvolvimento das crianças. Por isso, partilhamos algumas estratégias que podem ajudar a navegar a maternidade com mais leveza. 


Cultivar o seu bem-estar

A investigação em psicologia do desenvolvimento é clara: a saúde mental da mãe é um dos preditores mais consistentes da saúde mental da criança. Crianças com mães em estado de bem-estar emocional tendem a desenvolver maior segurança afetiva, melhores competências de regulação emocional e mais resiliência diante de dificuldades. E isto não se prende apenas com o cuidado da saúde mental - o sono fragmentado e o cansaço físico ignorado têm impacto direto na paciência e na capacidade de estar presente. Por isso, quando sentir que cuidar do outro se sobrepõe a cuidar de si, lembre-se: cuidar de si não é egoísmo, é sim um investimento no seu papel parental.



Não deixar de ser mulher para ser mãe

É impossível negar a dimensão que a maternidade assume na vida de uma mulher, mas não é impossível proteger os outros componentes da sua identidade de serem consumidos pela identidade materna. Antes de as crianças chegarem ao mundo já existia uma mulher com os seus interesses, relações, ambições e projetos pessoais,  e essa mulher não desaparece quando se torna mãe, apesar de frequentemente passar para segundo plano. A investigação mostra que mães com maior sentido de autonomia e identidade própria tendem a experienciar menos esgotamento parental e a estar mais emocionalmente disponíveis para estar com os filhos. Preservar espaço para si própria não significa abandonar o papel de mãe, mas sim construir uma base sólida para sustentá-lo.



Proteja-se de falsas informações

Na atualidade, a parentalidade conquistou um espaço cada vez maior no discurso público. No dia-a-dia, surgem com frequência opiniões não solicitadas e muitas vezes transmitidas de geração em geração sem qualquer base científica. Nas redes sociais, predominam páginas com conselhos contraditórios sobre como gerir situações quotidianas da maternidade, a par de representações de famílias aparentemente perfeitas, não havendo espaço para falar dos desafios reais: as birras, o cansaço acumulado, os dias em que nada corre como planeado. Literatura recente tem vindo a associar o uso intensivo destas plataformas a maiores níveis de ansiedade e sentimentos de inadequação parental. Ter dúvidas é normal e faz parte de qualquer caminho na maternidade. Procure ser seletiva com as fontes que consome, privilegiando profissionais em quem confie e conteúdos baseados em evidência científica. 


Manter presente que a qualidade do tempo supera a quantidade

Não é preciso estar sempre disponível para ser uma boa mãe. A investigação em psicologia sugere que momentos de atenção genuína e presença emocional, como brincar, conversar ou explorar algo novo juntos, têm um impacto muito superior na felicidade das crianças comparativamente a tempo partilhado no mesmo espaço, mas a realizar atividades paralelas. Isto aplica-se também a quem trabalha longas horas, a quem tem menos tempo do que gostaria ou a quem atravessa fases de maior exaustão e menor disponibilidade: o que fica na criança não é a duração, é a presença.


Falar sobre emoções em vez de as esconder

Há uma tendência natural para acreditar que não demonstrar emoções difíceis é uma forma de “proteger” as crianças. Contudo, a literatura científica sobre regulação emocional tem sugerido que modelar emoções de forma autêntica é, na verdade, mais útil para a criança do que a aparência de que nada a afeta. É desta forma que as crianças aprendem que as emoções são normais, que têm nomes, e que são possíveis de gerir através de diferentes estratégias.


Pedir ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza

A ideia de que uma mãe deve conseguir dar conta de todas as exigências da maternidade sozinha é socialmente construída, não baseada em evidência. Há um ditado africano que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança, e a investigação confirma-o: ter apoio é um dos fatores protetores mais robustos da saúde mental parental. Procure a sua aldeia, seja ela constituída por família, amigos ou profissionais. E lembre-se que ao fazê-lo está também a mostrar aos seus filhos que reconhecer os próprios limites e pedir ajuda é, em si mesmo, uma forma de força.


Ser mãe não vem com manual de instruções. E ainda bem, porque isso implicaria que existe uma forma “certa” de navegar a maternidade, o que não é verdade. O que existe são mães reais, com histórias, limites e recursos diferentes, a dar o seu melhor. E o seu melhor é suficiente. Neste Dia da Mãe, a tradição diz que é dia de receber presentes. Mas que tal oferecer-se um presente a si própria? Ofereça-se a permissão para se cuidar, para descansar, para pedir ajuda, para não se anular. Na Speechcare, sabemos que a maternidade se navega melhor acompanhada. Se em algum momento sentir que precisa de apoio especializado, encontramo-nos disponíveis para fazer parte da sua aldeia. 


Dra. Ana Carolina Paiva

Psicóloga

CPE - OPP - 135519

 
 
 

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