Crescer com presença: o impacto das figuras paternas no desenvolvimento da criança
- SpeechCare
- há 1 dia
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Ao longo dos últimos anos, a perceção social do papel paterno tem evoluído significativamente. Atualmente, os homens são cada vez mais reconhecidos como figuras participativas, presentes e plenamente capazes de cuidar dos seus filhos, começando a criar cada vez mais distância do estereótipo de uma figura paterna provedora, que garante o sustento da família, enquanto a figura materna assume a totalidade das responsabilidades de cuidado.
Assim, aceita-se que ambas as figuras parentais tenham papéis diferentes, mas complementares no desenvolvimento da criança, contribuindo para um equilíbrio das experiências relacionais que sustentam o seu crescimento. No âmbito da celebração do Dia do Pai, convidamo-lo a refletir connosco sobre alguns dos contributos únicos que a figura paterna pode trazer para o desenvolvimento infantil.
Abertura a novas experiências
Historicamente e do ponto de vista do desenvolvimento infantil, a figura do pai atua muitas vezes como mediador da separação saudável da relação simbiótica existente entre a criança e a mãe. Quando envolvido de forma ativa, o pai tende a incentivar a criança a sair da sua zona de conforto, tornando-a mais preparada para lidar com a novidade e aumentando a sua curiosidade intelectual.
Promoção da autonomia e exploração
De um modo geral, as brincadeiras selecionadas pelos pais são caracterizadas por serem de natureza física e terem um certo nível de risco, devidamente calculado. Este tipo de contexto permite que as crianças se regulem através da libertação de energia, que se desafiem, superem os seus medos e que fortaleçam a sua independência e resiliência.
Reforço da auto-estima
A presença consistente e validante do pai reforça o valor próprio e a autoeficácia da criança, independentemente do seu género, mitigando vulnerabilidades como ansiedade ou baixa confiança. Estudos mostram que o envolvimento paterno está associado a níveis mais elevados de auto-estima e a uma maior perceção de competência nas crianças, contribuindo para o desenvolvimento de uma identidade mais segura e confiante.
Papel na regulação emocional
Enquanto a figura materna tende a representar o processo de regulação através do conforto e da calma, a figura paterna associa-se frequentemente à ativação emocional, levando mais frequentemente a criança a picos de excitação e adrenalina. Estes momentos acabam por ser oportunidades importantes para que a criança aprenda a gerir essa intensidade, generalizando para outros contextos a competência de manter o equilíbrio e o autocontrolo mesmo sob forte pressão ou entusiasmo.
Fortalecimento de competências cognitivas
A quantidade e qualidade do tempo que as figuras paternas passam com os seus filhos surgem positivamente associadas a outcomes de desenvolvimento cognitivo. A interação com o pai em momentos de brincadeira, diálogo e descoberta, estimula capacidades como a resolução de problemas, o pensamento crítico, a linguagem e a criatividade.
Promoção de competências sociais e de interação
Estudos sugerem que o envolvimento específico do pai estimula interações com pares e modela comunicação assertiva, fomentando a ocorrência de mais comportamentos pró-sociais e aumentando a confiança da criança em contextos grupais. A figura paterna deverá dar o exemplo na resolução de conflitos e colaboração com os outros, construindo referências sólidas para as amizades e parcerias dos seus filhos.
O papel do pai no desenvolvimento infantil vai muito além do cuidado material, da presença física ou do suporte logístico. Pais presentes, ativos e afetivos contribuem de forma única para o desenvolvimento emocional, cognitivo e social da criança, oferecendo desafios, exploração e um estilo de interação que ajuda os filhos a navegar num mundo complexo e em constante mudança. Celebrar o Dia do Pai é reconhecer aqueles que oferecem às crianças não só o colo para se sentirem seguras, mas também as asas para que aprendam a voar.
Uma nota importante sobre a celebração do Dia do Pai:
Nem todas as crianças crescem com uma figura paterna. Algumas vivem em famílias monoparentais, passaram por processos de adoção, perderam o pai, ou vivem com outras pessoas significativas. Para estas crianças, a celebração do Dia do Pai na escola pode ser uma experiência dolorosa, que amplifica um sentimento de diferença precisamente no contexto onde mais se deveria cultivar a inclusão: a escola.
O caminho não passará necessariamente por abolir as celebrações, mas por repensá-las com sensibilidade. O que estamos a celebrar, verdadeiramente?
O Dia do Pai, tal como outras datas temáticas, poderá ser um espaço para que cada criança celebre a sua história, sem a encaixar num molde único, respeitando a diversidade das famílias e protegendo aqueles que já carregam consigo o peso de uma ausência.
Dra. Ana Carolina Paiva
Psicóloga
CPE - OPP - 135519




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