Artigo de Psicologia “Ser mais do que um casal: ser uma equipa”
- SpeechCare
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A partir do momento em que nasce um filho, surge também um dos maiores desafios da vida adulta: aprender a agir com consciência e responsabilidade, colocando o desenvolvimento saudável e pleno da criança no centro das nossas decisões.

A parentalidade convida-nos a rever prioridades e a aceitar que, muitas vezes, ainda estamos a aprender a ser pais pelo caminho, entre dúvidas, tentativas e ajustes.
O papel parental confronta-nos com múltiplas camadas da nossa própria história e do mundo à nossa volta. Somos influenciados pelas nossas características pessoais, pelas experiências que moldaram o nosso ciclo de vida, pela forma como fomos educados, por crenças pré-concebidas sobre parentalidade e pelas opiniões externas que ecoam à nossa volta. Tudo isto acontece dentro do contexto específico da época em que vivemos, com os seus próprios ritmos, exigências e expectativas sociais, muitas vezes diferentes das de gerações anteriores.
Quando a bagagem que cada um carrega é muito diferente da trazida pela pessoa parceira, o desafio da co-parentalidade torna-se ainda mais evidente. Cada pai e cada mãe chega à parentalidade com a sua própria história, valores e formas de reagir. É precisamente nesse encontro de diferenças que surge a necessidade de aprender a navegar entre dois mundos, encontrar pontos de convergência e construir, em conjunto, um espaço seguro para o crescimento da criança. O que para uma pessoa pode parecer natural, para a outra pode soar estranho ou até errado, e é normal que surjam opiniões divergentes sobre como agir na parentalidade, mesmo quando a intenção de cuidar é partilhada e o amor entre ambos é imenso.
No quotidiano, estas divergências aparecem numa variedade de situações: na forma como cada um reage a uma birra, na importância que cada um dá ao cumprimento de horários e rotinas ou na maneira como lidam com questões relacionadas com a escola ou com as primeiras frustrações. O que, à primeira vista, parece apenas um desacordo sobre “como fazer”, é muitas vezes um reflexo das necessidades, experiências e receios de cada adulto. Reconhecer que isto é normal e superável ajuda a aliviar o peso do conflito: discordar não põe em causa a qualidade da relação nem o amor que existe entre o casal, nem significa que a outra pessoa não valoriza o esforço que fazemos. Significa, sim, que estamos a aprender a encontrar o nosso caminho neste papel de mãe ou pai em conjunto. O que podemos fazer para tornar estes momentos de desacordo mais fáceis?
Evitar decidir em momentos de alta emoção - Quando a tensão está elevada, é menos provável que a conversa seja construtiva. Pode ser mais útil nomear isso e adiar (e.g., “Chegar a um compromisso sobre este assunto é importante para mim, mas vejo que estamos muito cansados. Amanhã podemos tirar 10 minutos só para falar sobre isto?”).
Não tomar decisões à frente da criança - isto permite proteger a criança do conflito e dar‑lhe a sensação de que os adultos estão do mesmo lado. Diante de um pedido ambíguo por parte da criança, pode dizer-se: “Os pais vão conversar sobre isso e depois damos uma resposta, está bem?”.
Começar pela ligação, não pela crítica - Reconhecer a intenção do outro com empatia e amor antes de introduzir uma perspetiva diferente ajuda a reduzir a defensividade e a transmitir a ideia de que os dois estão do mesmo lado: “Percebo que queiras protegê‑lo, mas para mim é difícil quando…”.
Ter cuidado com a linguagem - evitar rótulos ou generalizações como “tu és sempre assim” ou “tu nunca fazes…”. Falar na primeira pessoa torna o diálogo mais aberto: “Eu preocupo‑me quando…”, “Para mim é difícil quando…”.
Definir prioridades em comum - Pode ser útil decidirem juntos quais são as regras ou valores que são essenciais para ambos, deixando mais flexibilidade e espaço para negociação noutros detalhes do dia a dia.
Fazer perguntas que incentivem a reflexão - Estas perguntas ajudam a sair do “quem tem razão?” e a relembrar o casal daquilo que estão a co-construir.
Sobre o presente: “O que é mais importante para ti que ele aprenda nesta situação?”
Sobre o passado: “Na tua casa, como se tratavam estes assuntos? Do que gostavas ou não gostavas?”
Rever decisões ao longo do tempo - Aceitar que as respostas podem mudar com o tempo, as experiências e as aprendizagens de cada adulto.
Criar rituais - Designar momentos curtos, mas regulares, só para falar de parentalidade, reforçando as conquistas como dupla e o vínculo afetivo do casal. Por exemplo, tirar 10–15 minutos ao domingo à noite para rever a semana, falar sobre o que funcionou e o que querem tentar de outra forma.
Negociar objetivos concretos - Em vez de pensarmos em termos abstratos, como “temos de mudar a forma como educamos”, devemos procurar definir objetivos mais específicos e testáveis: “Podemos combinar que, esta semana, quando não concordarmos com a decisão do outro, falamos sobre isso mais tarde, a sós, em vez de o fazer no momento?”.
Não ter medo de pedir ajuda - Quando as conversas ficam demasiado difíceis ou giram sempre à volta dos mesmos temas, o apoio profissional em aconselhamento parental ou terapia de casal pode oferecer um espaço seguro para reorganizar a comunicação e proteger a relação e a co‑parentalidade.
Essencialmente, torna-se importante compreender a mudança de paradigma que a parentalidade exige - é ser mais do que um casal, ser também uma equipa e caminhar em conjunto nesta jornada - cheia de desafios, mas também repleta de alegrias. O amor conjugal não pode ser esquecido pelo caminho. Cuidar da relação, partilhar momentos de afeto e reconhecer o valor do outro são fatores que se encontram associados a uma co‑parentalidade mais cooperante e menos conflituosa. É nesse equilíbrio entre o amor que une o casal e a força que constroem juntos como equipa, que nasce um dos maiores presentes que podemos oferecer a uma criança: a certeza de crescer num ambiente seguro, onde os pais estão unidos, atentos e disponíveis para a acompanhar.
Dra. Carolina Paiva




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